Argentina vê 'renascer' sua classe média

Boom de consumo mostra a recuperação de uma parcela que já representou dois terços da população


Karina Reniu mal pode acreditar na própria sorte. Essa argentina de 28 anos vive em um belo apartamento em Palermo, bairro sofisticado da capital, Buenos Aires, todo decorado com aparelhos de última geração. Sua carreira como gerente de telemarketing está a todo vapor e ela está planejando uma viagem de turismo a Nova York em setembro.

Nada mal para alguém que há quatro anos estava se preparando, como milhares de jovens, para partir para a Itália ou para a Espanha em busca de uma vida melhor. Recém-formada e sem perspectivas, ficar na Argentina em 2001 parecia um atraso de vida.

Olhando para trás, ela agora acredita que ter ficado no país acabou salvando sua carreira. Desde que voltou para seu antigo emprego no Clienting Group, um operador de call-center, ela passou a trabalhar para clientes como Repsol YPF, Oracle, e Hewlett-Packard. "Comecei como telefonista e hoje tenho 35 pessoas trabalhando para mim", diz, meio maravilhada consigo mesma.

Reniu pertence a uma espécie que esteve à beira da extinção por causa da crise do país nos últimos anos: a classe média da Argentina. A julgar pelos restaurantes especializados em carne lotados em Buenos Aires e pelos shows de rock com todos os ingressos previamente vendidos, essa classe média do país parece estar voltando à cena.

Argentinos lêem jornal em um café de Buenos Aires: graças à recuperação da economia, negócios estão prosperando O setor de agricultura da Argentina e seus maiores empresários foram os primeiros a provar da recuperação econômica puxada pelas exportações, as quais devem dar força a um crescimento geral de 6,5% neste ano, após a expansão de 9% do ano passado. Uma das chaves para esse fenômeno é o câmbio competitivo - o peso hoje está 70% mais barato em relação ao dólar do que na maior parte dos anos 90.

Agora, enfim, a nova prosperidade econômica começa a aparecer. A evidência mais tangível do ressurgimento da classe média é o aumento frenético do consumo. Graças a uma combinação de queda do desemprego e das opções de crédito sem juros, os argentinos estão comprando de tudo, de casas novas a automóveis e refrigeradores.

As vendas de veículos, por exemplo, dobraram em 2004, chegando a algo perto de 312 mil unidades. A Câmara Nacional da Indústria Automobilística espera que neste ano as vendas aumentem 40%. As vendas de utilidades domésticas cresceram impressionantes 71,5% em 2004 - no primeiro trimestre deste ano, o aumento está em 56%.

Enquanto isso, Matías Terrizano, gerente comercial do Nordelta, um condomínio fechado de US$ 250 milhões perto de Buenos Aires, está fazendo excelentes negócios com a classe média que vem fugindo da crescente violência urbana. "Estamos com substanciais novos lançamentos neste ano", disse Terrizano. Os preços dos terrenos em condomínios fechados como o Nordelta estão de 5% a 10% mais altos do que durante os anos pré-crise.

Muito dos gastos revelam uma mentalidade "viva o dia de hoje", forjada em grande parte pelos saltos de hiperinflação e pelas sucessivas crises econômicas.

"Os argentinos têm vivido uma realidade de presente perpétuo", disse Claudio Lozano, economista da Confederação Geral dos Trabalhadores da Argentina, a maior organização sindical do país. "Se eles tiverem dinheiro, gastam, pois ninguém sabe o que nos reserva o futuro."

Mesmo assim, o atual "boom" de consumo está construído em fundações mais firmes do que antes. A bonança de meados dos anos 90 foi em grande parte produto de uma moeda supervalorizada e da especulação financeira. Outro fator que pesa agora é a comparativamente mais bem formada força de trabalho. Dados do Banco Mundial mostram que 48% dos argentinos que completam o colegial se formam em universidades - a maior proporção em toda a América Latina. "Os empreendimentos florescem fazendo uso de trabalhadores qualificados", diz Leonardo Gasparini, professor de economia da Universidade de La Plata.

A diferença é clara no setor de tecnologia da informação. Cinco anos atrás, as empresas de software da Argentina davam emprego a 15 mil pessoas; hoje, há o dobro de postos de trabalho. E os salários estão aumentando mais de 20% ao ano, batendo US$ 1,13 bilhão no ano passado. A HP, a Oracle, a Cisco Systems, a IBM, a America Online e a palmOne, todas elas, centralizaram suas operações regionais de back-office em Buenos Aires ou pelo menos realocaram suas pré-vendas, vendas e operações de atendimento ao consumidor na cidade. Graças em parte a esses novos empregos, a taxa de desemprego na Argentina, que havia chegado a 24,1% no fim de 2002, caiu pela metade, registrando 12,1% em dezembro passado - seu mais baixo patamar em quase dez anos.

"Economias em crises agudas têm grande vantagem: você pode começar uma nova empresa com menos investimento e achar de modo fácil gente qualificada e motivada para trabalhar", afirma Carlos Pallotti, diretor para América Latina da Datastream Systems, uma empresa de serviços de informação e tecnologia baseada na Carolina do Sul (EUA).

Com os salários mais competitivos vis-à-vis outros lugares, como México ou Porto Rico, a Argentina está atraindo mais call-centers de língua espanhola. Um representante de suporte técnico ganha cerca de US$ 3 a hora.

Os salários na Clienting Group, a empregadora de Reniu, cresceram 250% em 2004. E a companhia espera um crescimento de 50% neste ano. "Historicamente, a Argentina sempre foi cara demais para entrar nesse mercado", diz o vice-presidente da Clienting, Juan Pablo Tricarico. "Graças à desvalorização e a amadurecimento do mercado doméstico, a Argentina vem ganhando agora uma vantagem competitiva internacional."

Mesmo as pequenas empresas argentinas estão conquistando mais clientes internacionais. O número de companhias pequenas ganhando com o mercado externo cresceu 42% de 200 para 2003, de acordo com a Câmara Argentina de Exportadores.

Uma história de sucesso é a do Grupo Managers, uma consultoria de Buenos Aires que aconselha empresas em assuntos de tecnologia e recursos humanos. Luis Riva começou o negócio em 1994, mas, depois dos primeiros anos de sucesso, ele viu sua receita cair para apenas US$ 80 mil em 2001, o que o levou a demitir dez pessoas. O empresário de 53 anos então investiu em softwares que analisam os preços e a disponibilidade de cereais geneticamente modificados, criando um banco de dados que ele vende aos agricultores argentinos. Em 2004, o Grupo Managers triplicou sua receita para US$ 300 mil, abrindo 50 novas vagas de trabalho e inaugurando subsidiárias na Colômbia e no Uruguai. "Temos vistos tempos instigantes, com muita adrenalina", diz Riva.

Muitos argentinos já estão imaginando por quanto tempo essa bonança perdurará. Os preços cresceram 4% só no primeiro trimestre deste ano. E o ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, adverte que a inflação pode chegar a 11%.

E, mesmo com a classe média se recuperando, seu tamanho caiu de modo impressionante. Nos anos 70, mais de dois terços dos argentinos se identificavam como sendo de classe média.

Desde a crise, os sociólogos vem identificando uma categoria chamada de "novos pobres", ou seja, famílias que já foram de classe média mas que pioraram muito seus padrões, entrando na pobreza. Segundo algumas estimativas, esse grupo representa hoje 30% da população.

Não é de admirar que os novos prósperos, como Reniu, estejam contando suas bênçãos.

Fonte: Valor Econômico



575- 20/05/2005
Álvaro Pozzetti

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